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Nueva Geopolítica, 1, Noviembre - Diciembre de 2015

Mário Travassos e a projeção continental do Brasil 

Larissa R. Vaccari de Arruda & Ludolf Waldmann Júnior


Pouco depois de seu surgimento na Europa, a Geopolítica rapidamente encontraria espaço no Brasil. As obras de Friedrich Ratzel, Rudolf Kjéllen e Halford Mackinder logo foram traduzidas, tendo uma boa recepção. Já na década de 1920 surgiu a primeira obra no país, escrita pelo geógrafo Everaldo Beckheuser. A partir de então, a geopolítica brasileira cresceu e se diversificou, porém, tornou-se um campo dominado por estudos de autores militares durante a maior parte do século XX.

No início da década de 1930 surgiu o mais importante pioneiro militar da disciplina, cujo impacto marcou profundamente o pensamento geopolítico brasileiro. Tratava-se de Mário Travassos, então capitão do Exército Brasileiro. Seu trabalho seminal, Aspectos Geográficos Sul Americanos, foi publicado em 1931, sendo renomeado a partir da segunda edição para Projeção Continental do Brasil. Travassos obteve um enorme sucesso, tendo logo na primeira edição de seu estudo um prefácio de Pandiá Calógeras – eminente político à época e ex-Ministro da Guerra – e republicada, num curto período, em várias edições nacionais, inclusive sendo traduzida para o espanhol em 1941.

Como já apontado, Mário Travassos tinha formação militar e vivenciou momentos importantes da história brasileira. Travassos atuou em conflitos como na Guerra do Contestado (1912-1916), na Revolução Constitucionalista de 1932 e participou da Força Expedicionária Brasileira enviada para combater na Itália durante a II Guerra Mundial. Também foi o primeiro comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, que até hoje é o local onde se formam os futuros oficiais do Exército Brasileiro.

Quando nasceu, em 1891, conheceu um Brasil dominado por pequenos grupos oligárquicos, muito excludente com sua população. Entrou para o Exército em 1908, numa época em que esta instituição clamava por reformas e que era visivelmente inferior ao exército da rival Argentina. Com a Revolução de 1930, o Estado brasileiro foi continuamente reformado. Entre as inúmeras mudanças implantadas com a Era Vargas (1930-1945), podemos destacar o sufrágio feminino, o surgimento dos Direitos Sociais, centralização do poder Federal, criação da Justiça do Trabalho, industrialização, etc. O espírito reformista também estaria no Exército, que neste período foi profundamente transformado, tornando-se um dos principais atores no cenário político brasileiro nas décadas seguintes.

Nesse cenário de implantação de mudanças, quando em 1931 escreveu sua obra, Travassos considerava o Brasil vulnerável, necessitando fortalecer seu poder, especialmente em relação à Argentina. Para isso, ele considerava fundamental estabelecer uma política de integração nacional, além da ampliação dos contatos do país com os vizinhos, sobretudo com a oeste do país. Travassos, como autor da geopolítica, iniciou sua análise da situação sul-americana partindo da premissa da importância dos fatores geográficos na formulação de políticas visando fins estratégicos. Travassos fora influenciado pelas teorias geopolíticas clássicas de Friedrich Ratzel e, sobretudo, Halford Mackinder, proponente da teoria do poder terrestre.

Observando a geografia da América do Sul, estabeleceu uma área pivot. Se o criador do termo, Mackinder (1904), apontava a área pivot no coração da massa euroasiática fundamental para o controle global, Travassos restringiu-se a pensar o Sul de seu continente.

De modo similar, a área pivot da América do Sul seria o planalto boliviano, já que dali convergiam as principais características geográficas continentais. Travassos dividia o continente pela oposição dos dois oceanos que o banhavam: o Atlântico e o Pacífico. Enquanto a região do Pacífico era marcada pela ausência de grandes rios, estuários e por suas quase instransponíveis montanhas, a vertente atlântica era marcada pela existência de vastos rios que nasciam no coração do continental, atravessando áreas ricas e férteis. A existência de dois grandes rios na vertente atlântica criava outro antagonismo geográfico: o da bacia do Prata mais ao sul e o da Bacia Amazônica ao norte. 



A bacia do Prata era controlada pela Argentina, já que sua foz convergia ao centro político argentino, Buenos Aires. Ainda que dominada pela Argentina, a Bacia do Prata era composta por vários países: Uruguai, Paraguai, Brasil e Bolívia. De outro lado, a bacia Amazônica era controlada pelo Brasil, uma vez que esse país controlava tanto a foz do Amazonas como a maior parte de sua bacia hidrográfica. Da mesma maneira, a Bacia do Amazonas banhava vários países: Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e as Guianas tinham regiões sob influência da bacia amazônica. Soma-se a equação a existência de países sem saída para o mar, casos de Paraguai e Bolívia, o que abria espaço para o jogo de influência e competição por esses territórios entre Brasil e Argentina.

Observando os aspectos geográficos, o autor levanta duas áreas de “instabilidades geográficas” no continente sul-americano: o canal do Panamá e planalto boliviano. O primeiro era um verdadeiro cruzamento internacional sujeito à influência extracontinentais. Era uma área sujeita aos Estados Unidos e servia como a porta de entrada do imperialismo estadunidense.

A outra área instável, o planalto boliviano, era área de encontro dos principais antagonismos geográficos continentais. Sofria pressão de ambos oceanos e dali nasciam os rios que compunham as bacias do Prata e Amazônica. Núcleo do heartland era definido pelo triângulo Cochabamba, Santa Cruz de la Sierra e Sucre, uma região rica recursos econômicos. Como não tinha saída para mar, a Bolívia necessitava de um porto para escoar sua produção. 

Nesse cenário, no início do século XX, a Argentina desfrutava de protagonismo político diante da América do Sul. Para Travassos, sua política de transporte para com os países vizinhos tinha o objetivo de aumentar sua influência na região. As ferrovias argentinas completavam o transporte fluvial platino; a expansão ferroviária levava, igualmente, a presença argentina para o Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Enfim, tal política acarretou na dependência boliviana ao porto de Buenos Aires. Deste modo, a Argentina controlava a rica região boliviana, área pivot da América do Sul. O país ainda era, então, militarmente e economicamente superior ao Brasil. Analisando esta configuração, Travassos elaborou quais deveriam ser as ações brasileiras para frear o que via como avanço argentino. 

Era central, para o autor, que o Brasil deveria ter uma coerente política de transportes. Por ser um país de dimensões continentais e também por causa da desigualdade regional, determinadas regiões encontravam-se praticamente isoladas no início do século XX. Para se ter um exemplo, o estado brasileiro de Mato Grosso levava de 1 a 3 meses para estabelecer ligação com a capital federal, Rio de Janeiro, o que era feito por água, tendo de atravessar Uruguai, Argentina e Paraguai. Ainda hoje, nos estados amazônicos Pará e Amazônia leva-se duas semanas para chegar a algumas comunidades ribeirinhas. 

A preocupação com a integração do Brasil, era um dos objetivos do regime nascido nos anos 1930, a Era Vargas. A não integração vinha de vários fatores, desde os diferentes ritmos de ocupação territorial, concentração populacional no litoral e em capitais de estado. Assim, é um padrão existir cidades mais velhas e populosas no Leste e mais jovens a Oeste.

Outro contribuição para o descompasso brasileiro, durante a  Primeira República (1889-1930) consolidou um modelo de grande desigualdade regional, que relegou pobreza para o Nordeste brasileiro e riqueza para o Sudeste. O Brasil era composto por núcleos regionais não integrados, com grande diversidade econômica, cultural, de desenvolvimento humano, cientifico. Na década de 1930 havia grande preocupação pela desintegração do país, assim, resultou em contínua interferência federal para promover centralização, ocupação territorial para oeste e impor presença estatal diante dos vários núcleos privados. 

Os vazios populacionais e a ausência de integração nacional criavam obstáculos ainda maiores para conter o avanço da influência argentina. A única possibilidade de conter efetivamente a Argentina era desafiá-la pela influência sobre o heartland boliviano. E a melhor maneira de fazer isso seria oferecendo um porto alternativo para o país andino.

Nessa empreitada, as características geográficas do continente eram favoráveis aos brasileiros. Uma outra saída enxergada pelo autor seria o desenvolvimento da Bacia Amazônica. A foz do Amazonas se encontrava melhor posicionada que a do Prata nas grandes linhas de comunicação marítimas e, caso suas capacidades viatórias fossem desenvolvidas, canalizaria todas as riquezas do heartland boliviano por aquela região às custas da Argentina. Mas muitas dificuldades se imporiam, pois, a região era isolada dos centros urbanos, tinha pouca densidade demográfica e era marcada pela imensidão da floresta Amazônica. Outra solução deslumbrada seria explorar a parte brasileira da Bacia do Prata, desenvolvendo uma malha ferroviária que ligasse os grandes portos brasileiros no Sudeste do país (que eram melhor posicionados que Buenos Aires) à área pivot boliviana.

Isto seria importante tanto para o aspecto da integração nacional quanto para a conter o avanço sobre os vizinhos. Como Leste e Oeste brasileiro não estavam integrados, o Oeste brasileiro ficava também sob influência argentina. Travassos defendeu, então, que uma ferrovia ligasse o porto de Santos (estado de São Paulo), passando pelo sul de Mato Grosso até alcançar Santa Cruz de La Sierra. A ligação entre São Paulo e Mato Grosso já havia sido feito, em 1914, partindo de Bauru (região central de São Paulo) a ferrovia Noroeste chegava a Campo Grande, no Sul de Mato Grosso. 

Travassos acreditava na importância da região sul de Mato Grosso [1], que seria um prolongamento do heartland boliviano sobre o Brasil, um triangulo formado pelas cidades de Campo Grande, no centro do estado e equidistante aos dois países vizinhos; Corumbá, fronteira com Bolívia; e Ponta Porã, fronteira com Paraguai. Era necessário integrar a região com restante do país, especialmente, com o estado vizinho São Paulo. A partir da influência no heartland, Brasil ganha projeção continental, além de obter recursos que fortalecem o país para impedir o avanço dos imperialismos argentino e norte-americano.

A obra de Mário Travassos tem notável pioneirismo e originalidade, influenciando outros geopolíticos que surgiriam a partir de então. O autor não advogou pelo uso da força militar com seus vizinhos e, sim um posicionamento brasileiro diante da influência dos Estados Unidos e Argentina. Como já afirmado anteriormente, foi muito aclamada em sua época. Suas ideias de integração nacional ganhavam relevância na época quando se considerava as políticas centralizadoras, desenvolvimentistas e integradoras que o governo Vargas executava. Na opinião de Hage (2013, p. 112), “Travassos fora autor de projeto de desenvolvimento (com licença desse termo), cujo desdobramento poderia ser o bem-estar nacional”. Há também indícios de que Travassos pode ter influenciado o pensamento militar brasileiro da década de 1930.

Travassos influenciou os autores da geopolítica brasileira posteriores. O então coronel Golbery do Couto e Silva, um importante militar e geopolítico da década de 1950 e ligado à Escola Superior de Guerra e ao desenvolvimento da Doutrina de Segurança Nacional, também considerava a Bolívia como heartland sul-americano. Golbery concebia que a região demarcada entre o planalto boliviano e o Mato Grosso como “área continental de soldadura”, cuja função continuaria sendo a mesma da encontrada em Projeção Continental do Brasil. Outro relevante autor de geopolítica brasileira, o também militar Carlos de Meira Mattos, do mesmo modo foi bastante influenciado por Mario Travassos. Em 1960, lançou Projeção Mundial do Brasil, fazendo alusão à obra magna de Travassos e defendendo uma projeção internacional do país no concerto mundial das nações, numa tônica que continuaria em todos os seus trabalhos posteriores.

No campo da política, as ideias de Travassos também tiveram eco. A busca da ligação com o heartland boliviano, oferecendo saída para o Atlântico via Brasil, parece estar dentro dos planos de integração nacional levados à cabo por alguns governos brasileiros. Em 1938, com o Tratado de Natal, o Brasil se comprometeu a estender a Noroeste até Corumbá, com o objetivo de, num passo posterior e com recursos do tesouro nacional, ligar Santa Cruz de la Sierra com essa cidade brasileira. Posteriormente, já durante o período da ditadura militar, a influência de Travassos se fez sentir novamente nas políticas perseguidas pelos generais-presidentes. Uma das prioridades da política externa do regime militar era a integração e cooperação regional do Brasil com seus vizinhos sul-americanos, encaminhando inúmeros projetos de ligação rodoviária e ferroviária, construção de pontes e ampliação de meios de transporte com seus vizinhos. De outro lado, a construção da hidrelétrica de Itaipu e a da rodovia Paranaguá-Foz do Iguaçu tinham como metas geopolíticas reduzir a influência argentina sobre o Paraguai. 

O regime militar ainda iniciaria o faraônico empreendimento da rodovia Transamazônica, inaugurada em 1972 com o objetivo de integrar o Norte com o restante do país, além de estabelecer uma rota terrestre viável com o Peru e Equador. Ainda em 1977 o sul do Mato Grosso seria separado pelos generais da ditadura, criando-se o estado do Mato Grosso do Sul, grosseiramente delimitado segundo princípios geopolíticos onde o triângulo Campo Grande – Ponta Porã – Corumbá estaria dentro do novo estado brasileiro.


Bibliografia

Cervo, Amado Luiz e Bueno, Clodoaldo (2008). História da política exterior do Brasil. Brasília: Universidade de Brasília.

Hage, José Alexandre Altahyde (2013). "Mario Travassos e a geopolítica brasileira: Tensões com a Argentina e preocupações com Imperialismos". Revista Brasileira de Geopolítica, 4 (1), p. 98-114. 

Mackinder, H. J. (2011). "O pivô geográfico da história". Revista de Geopolítica, Natal, 2 (2), p. 3 – 27. Original: 1904, "The geographical pivot of history, The Geographical Journal. 23 (4)

Miyamoto, Shinguenoli. (1981). "Os Estudos Geopolíticos no Brasil: uma contribuição para sua avaliação". Perspectivas, (4), p.75-91.

Travassos, Mário. (1938) Projeção Continental do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional.

Referências

[1] Atual estado de Mato Grosso do Sul. Desde 1892 ocorria reivindicações pela divisão do estado. Após enfrentamento armado em 1932, tentativa de mudança de capital em 1948, em 1977 a Ditadura Militar (1964-1985) dividiu o estado, dando origem ao estado de Mato Grosso do Sul.


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